Reencontros

A vontade de partir surgiu sem avisar… Veio sorrateira, instalou-se dentro de si e foi minando e corroendo, aos poucos, todas as suas ideias pré-definidas de felicidade, vida e futuro… Quando deu por si já era tarde! Já não valia a pena pensar muito sobre isso, nem avaliar os prós e contras de decisões precipitadas ou arrojadas. Agora era altura de agir, senão ia, simplesmente, rebentar!

Dentro de si fez-se luz! Foi como se, de repente, o seu cérebro abrisse uma porta que estava há anos fechada e trancada a sete chaves, não tendo mesmo assim rangido por um segundo. Abriu-se e, num ápice, fez-se luz. Maria percebeu tudo, soube tudo e agiu. Vivia uma vida feliz, ou pelo menos assim o consideraria qualquer sociedade dita civilizada, tinha um curso superior, um trabalho importante, o carro dos seus sonhos, uma casa com vista, o seu fiel labrador Benjamim, um namoro de 7 anos, 5 meses e 22 dias, com toda a rotina e habituação que um namoro extenso e sem vontade implícita de evolução costuma ter.
Entregou uma carta de rescisão, vendeu a casa com tudo lá dentro, terminou o namoro de 7 anos, 5 meses e 22 dias e colocou dentro do carro o essencial: roupa, música e livros e partiu com o Benjamim rumo à leveza e felicidade da incerteza.
Maria não sabia muito bem para onde ia… Nem sequer estava interessada em sabê-lo… Ia embora. Simplesmente, embora! E nunca se sentira tão leve quanto naquele momento em que quilómetros de estrada enfadonha iam ficando para trás e quilómetros expectantes de estrada sem fim se afiguravam perante si! Sentia-se como se tivesse sofrido de problemas respiratórios até àquele momento, os quais se haviam curado por milagre assim que a porta misteriosa se abriu…
Na primeira paragem que fez, algures no meio do Alentejo, tomou um café e inspirou bem fundo, como se o fizesse pela primeira vez. O cheiro do campo, do café acabado de tirar, dos queijos na vitrina, do vinho tinto no copo do senhor sentado na mesa ao lado… todos se misturavam numa tal intensidade que parecia ser a primeira vez que os sentia! Ao longe conseguia ouvir o som difuso de música. Aos poucos, este foi aumentando, dando lugar a uma melodia que, sem conhecer, reconheceu imediatamente…
Levantou-se e com o Benjamim a seu lado passou por três casinhas pequenas, caiadas de branco, com tantas demãos que a irregularidade das paredes se conseguia sentir sem tocar… contornou um velho poço e seguiu por um caminho ladeado de girassóis, todos virados para o sol e para o som que a guiava.
Chegou perto de um enorme sobreiro e, encadeada pelo sol, apenas conseguiu vislumbrar um vulto e uma guitarra em contraluz… Na sua mente aquela imagem iria ficar gravada durante muito tempo, como uma fotografia que passa entre gerações, levando através delas o conhecimento e o entendimento de vidas e vivências passadas.
Continuou a caminhar até se encontrar à sombra da árvore. Sentou-se junto ao desconhecido e ouviu a sua melodia até ao fim, viajando por sítios e sensações que ao descobrir, redescobriu…
Enquanto o último acorde ainda ressoava por entre o campo que os rodeava, o desconhecido levantou o rosto e ambos se olharam…
Olhos nos olhos…
Duas lágrimas caíram…
Maria chegara a casa!…

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